Os nativos digitais e a perspectiva naturalizante da aprendizagem
Há alguma relação entre o conceito de nativos digitais e aprendizagem naturalizante?
Tem-se delegado por
discursos na qual as crianças nascidas nesta geração têm seu pensamento
fundamentalmente alterado devido às mídias digitais. A pauta tem se centrado em dizer que as
crianças de hoje, diferentemente da geração anterior, têm uma capacidade de
realizar diversas atividades cognitivas ao mesmo tempo, isto é, sujeito
multitarefa (nativo digital/multitarefa humana/homo zappiëns) (KIRSCHNER;
BRUYCKERE,
2017). Com isso, os líderes da educação e educadores veem uma educação que seja
fundamentalmente diferente da geração anterior, alegando que nesta geração
existe um outro sujeito, com um cérebro e mente totalmente diferente.
Uma fala marcante disso nos discursos educacionais, é a pergunta feita para Willingham (p.3, 2010):
It seems like students today have a love affair with technology. They are much more up-to-date on the latest gadgets, and they seem to have a sixth sense about how to use them. Is it true that growing up with cutting-edge technology has left them thinking differently than students of past generations? And what do the data say about bringing this technology into the classroom? Does it help students learn? (Trad. Google Translate: Parece que hoje os estudantes têm um caso de amor com a tecnologia. Eles são muito mais atualizados sobre os gadgets mais recentes e parecem ter um sexto sentido sobre como usá-los. É verdade que crescer com tecnologia de ponta os deixou pensando diferente dos estudantes das gerações passadas? E o que os dados dizem sobre trazer essa tecnologia para a sala de aula? Ajuda os alunos a aprender?)
Diante da aceitação de
que há um outro tipo de sujeito nas escolas, é pensado pedagogias que tapem o
buraco entre a escola e a sociedade no tocante ao preparo de habilidades que
são demandadas pelo século XXI (KIRSCHNER; BRUYCKERE, 2017)
(resolver vários problemas simultâneos sem e/ou pouca elaboração, por exemplo),
e que a educação não poderia ficar de fora dessa nova era de seres humanos. E a
primeira meta consiste em professores usarem constantemente as novas
tecnologias nas suas aulas.
A observação feita pelos
apoiadores do conceito é em virtude das crianças terem nascido em um contexto
social ao qual estão rodeadas pelas tecnologias digitais, e o fato delas
estarem envolvidas nesse ambiente fez com que dotassem habilidades que os
diferenciam das gerações anteriores. A formulação do conceito por Prensky,
consiste em observações as quais ele mesmo cita: “[...] cercadas e usando
computadores, videogames, tocadores de música digital, câmeras de vídeo,
celulares e todos os outros brinquedos e ferramentas da era digital"
(2001, p.1 apud KIRSCHNER; BRUYCKERE, p.1, 2017).
A partir dessa
observação, constatou-se que as crianças poderiam mexer com vários dispositivos
ao mesmo tempo de maneira eficiente e eficaz no sentido de que as mesmas sabiam
do que estavam fazendo visto que seriam sujeitos alfabetizados digitalmente
(autoalfabetizaram-se). Na fala de Bullen et al (p.1, 2008): “[…] The
Millennial or Net Generation learner is described as digitally literate,
connected, social, experiential, with a preference for teamwork, structure,
immediacy and a predominantly visual/kinesthetic learning style (Oblinger &
Oblinger, 2005) (Google Translate: O aluno do milênio ou da geração líquida é
descrito como alfabetizado digitalmente, conectado, social, experiencial, com
preferência pelo trabalho em equipe, estrutura, imediatismo e um estilo de
aprendizado predominantemente visual/cinestésico (Oblinger & Oblinger,
2005). Desse modo, a educação deveria ser reformatada para proporcionar tal
atividade de multitarefa, e as novas tecnologias seriam a chave de tal processo
pedagógico.
Em detrimento disso, Veen
e Vrakking (2006 apud KIRSCHNER; BRUYCKERE, 2017) formulou
o conceito de homo zappiëns ao direcionar-se que as crianças, sem a necessidade
de instrução, desenvolveram certas habilidades de cunho metacognitiva
fundamentais para diversos tipos de aprendizagem que vem sendo produzidas:
aprendizagem baseada em inquérito, aprendizagem baseada em descoberta,
aprendizagem em rede, aprendizagem colaborativa, aprendizagem ativa, auto-organização,
aprendizagem baseada em problemas e etc (KIRSCHNER, MERRIËNBOER, 2013).
Tais argumentos são de
uma perspectiva naturalista e uma falta de visão crítica ao quanto os jovens de
hoje sabem sobre as tecnologias. A perspectiva naturalista, poderia ser ilustrada
a partir de um exemplo relacionado à aprendizagem da língua escrita e da
matemática formal no processo de alfabetização que, ainda hoje, advoga-se que
as crianças aprendem a ler e a escrever e a matemática formal naturalmente
bastando estar em contato com um ambiente estimulador, negando a instrução
formal como princípio necessários para tal processo (DEHAENE, 2012; DEHAENE,
1997; HAASE, COSTA, SILVA, 2015).
Essa visão leva a
interpretação de que as crianças vão aprender de qualquer maneira a lactoescria
como se fosse natural, entretanto, já existem instrumentos para verificar como
o cérebro aprender a ler e escrever (hipótese da reciclagem neural –
especializar a mesma área que era responsável por reconhecer objetos, figuras e
a face humana a reconhecer, também, as letras e as suas formas diversificadas)
e que tal habilidade não ocorre de maneira natural (DEHAENE, 2012).
A psicologia
evolucionista trata isso muito bem ao se referir dois grupos de habilidades
biológicas: primária e secundária (GEARY, 2008 apud HAASE, COSTA, SILVA, 2015).
A primária corresponde ao campo do conhecimento em que as crianças não precisam
de instrução, e que tal habilidade é dotada perante um processo de evolução
humana (GEARY, 2008 apud HAASE, COSTA, SILVA, 2015), como a linguagem oral e
contagem. Por exemplo, não precisa ensinar a criança a falar e a contar, basta
ela está em contato com alguém que fala e objetos para contar; o cérebro já
está pré-programado para desenvolver a linguagem a partir da expressão do gene
FOXP2 que programa o cérebro humano para falar e a cultura imprimi a língua que
o sujeito vai falar, assim como a contagem e o rudimentos da aritmética na qual
o ser humanos, e outros animais, são dotados de tal habilidade que é explicado pelo
conceito Sendo Numérico (DEHAENE; 1997).
Entretanto, não existe um
gene impresso durante o processo de evolução humana para a aprendizagem da
lactoescrita, tratando-se, desse modo, que tal aprendizagem não acontece da
mesma forma que as habilidades biologicamente primárias, bastando o indivíduo
está imerso em tal contexto, mas sim o contrário (DEHAENE, 2012; GEARY, 2008
apud HAASE, COSTA, SILVA, 2015). As habilidades secundárias são aquelas em que
os seres humanos não foram dotados evolutivamente e que surgiu em virtude das
pressões culturais no contexto de formação das primeiras sociedades; e como
elemento de pressão – seleção cultural – da organização social se tem a língua
escrita, os fatos aritméticos, o sistema de numeração etc (GEARY, 2008 apud HAASE,
COSTA, SILVA, 2015). Desse forma, podemos constatar que a mente humana das
gerações atuais são as mesmas das de 7.000 e 5.000 anos atrás; e essa data é
intencional em virtude do surgimento da escrita, ou seja, os seres humanos
atualmente passam pelo mesmo processo de aprendizagem da língua escrita que os
indivíduos de séculos e milênios atrás.
Já a visão de que as gerações
de hoje são dotadas de tal conhecimento sobre as tecnologias, o que se verifica
é um conhecimento limitado sobre as funcionalidades básicas das novas
tecnologias, e o seu uso é pouco alinhado a possibilidades de aprendizagem –
analfabetos digitais (KIRSCHNER; BRUYCKERE, 2017). A
questão que se tem posto é que tais tecnologias impactaram tanto que as
crianças conseguem processar várias informações ao mesmo tempo e com isso aprender;
entretanto, não é isso que as pesquisas na área de psicologia cognitiva está
mostrando, evidenciando que a arquitetura cognitiva humana é a mesma das
gerações anteriores assim como o pensamento ocorre, e que tal sobrecarga (devido
ao uso de várias tecnologias digitais ao mesmo tempo) está prejudicando as
habilidades cognitivas das crianças (WILLINGHAM, 2011; WILLIGHAM, 2010;
KIRSCHNER; BRUYCKERE, 2017).
Isso pode ser atestado
quando são feitos teste de habilidades de controle cognitivo, ou seja, testes
em que as crianças são submetidas a trocarem de uma tarefa para outra e
verificar a sua precisão, e se observa, diante desses testes, uma diminuição na
velocidade de processamento e aumento de erros nas respostas emitidas
(WILLIGHAM, 2010).
E, além disso, o uso de
novas tecnologias na sala de aula não é sinônimo de aprendizagem e que tão
pouco aprender melhor, como são delegados por discursos pseudocientíficos
(WILLIGHAM, 2010). É verdade que as pessoas se relacionam com as informações de
forma diferente atualmente; consomem informações em vária plataformas na
internet, interação com outras pessoas no ambiente virtual e etc, porém, o uso
das mesmas no ambiente escolar não garante que as crianças possam aprender, e
que, na verdade, pode ir contra a aprendizagem (WILLIGHAM, 2010; KIRSCHNER;
BRUYCKERE,
2017).
Há, também, argumentos de
que as crianças gostam das novas tecnologias e estão engajadas com elas; porém,
isso vale para qualquer instrumento que desperte a atenção do aluno, pois o
engajamento/interesse é um estado mental em que o indivíduo é colocado para
resolver problemas solucionáveis, e a atenção desempenha uma função importante
para isso visto que qualquer coisa nova desvia a atenção do alunado como um
comportamento evolutivo da espécie para obter novas informações, mas não quer
dizer que tal ato vai fazer os alunos aprenderem melhor e mais (WILLIGHAM,
2010).
A passagem é oriunda de
palavras aliadas ao determinismo tecnológico e biológico que fez emergir um
outro cérebro na sociedade contemporânea (SELWYN, 2009 apud KIRSCHNER; BRUYCKERE,
2017), e que tal postulado coloca-se na linha de afirmações de que o
conhecimento não é mais importante haja vista que tudo pode ser encontrada na
internet e etc. A situação fica mais grave quando cria-se argumentos de que os
professores aos quais não possuem habilidades digitais estariam atrapalhando a
aprendizagem dos alunos aos quais possuem tal habilidade determinística (KIRSCHNER;
BRUYCKERE,
2017). Há elucidado em falas como essa que a principal e melhor maneira de
aprender é usando novos recursos tecnológico como um gadget novo e/ou telas
interativas.
A multitarefa, dita como
a grande habilidade cognitiva característica dos jovens desta geração, é um
conceito vindo da ciência da computação na qual um computador e/ou
microprocessadores (processadores com mais de um núcleo de processamento) é
capaz de realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo (KIRSCHNER; BRUYCKERE,
2017). O conceito da computação é trazido para definir habilidades humanas de
realizarem múltiplas tarefas de processamento de informação (pensamento) como
ler e-mail e falar com outra pessoa ao mesmo tempo, requerendo outras formas de
processamento cognitivo ao mesmo tempo (KIRSCHNER; BRUYCKERE,
2017).
O
problema disso é que o cérebro humano não consegue realizar tal proeza como os
microcomputadores multicores (múltiplos núcleos), mas sim alternar entre
diferentes tarefas em vez de executá-la simultaneamente, ou seja, o conceito
dado de humano multitarefa em si é um mito (KIRSCHNER; BRUYCKERE,
2017). Entretanto, a arquitetura cognitiva humana só permite realizar tarefas
ao mesmo tempo caso não exija processamento cognitivo, isto é, quando as
tarefas foram automatizadas e não precisam ser pensadas para executar, não
ocupando espaço na memória de trabalho (SWELLER, AYRES, & KALYUGA, 2011
apud KIRSCHNER; BRUYCKERE, 2017; WILLIGHAM, 2010). Um
elemento de exemplo que pode ser citado é falar e escrever ao mesmo tempo coisa
diferentes; a atenção estará sendo dividida e a concentração partilhada podem
escrever aquilo que está falando com alguém e não o que estava pensando sobre
um conteúdo havendo uma perda de eficiência.
A
troca de uma tarefa para outra reduz exponencialmente a velocidade e a eficiência
do processamento cognitivo além de ser um gasto energético ainda maior, comparo
a executar uma tarefa de cada vez (KIRSCHNER; BRUYCKERE, 2017;
WILLIGHAM, 2010). Ao processar uma informação, os dispositivos cognitivos
alinham-se na determinada tarefa impedindo a multitarefa, possibilitando apenas
o sujeito pular, aparentemente, para uma outra tarefa. Kirschner e Bruyckere (p.138, 2017) diz bem sobre essa
questão:
In general, research has shown that when thinking or
any other form of conscious information processing is involved in carrying out
a task, people are not capable of multitasking and can, at best, switch quickly
and apparently seamlessly from one activity to another. The key word here is
again ‘apparently […] (KIRSCHNER; BRUYCKERE, p.138,
2017). (Google
Translate: Assim, o que estamos realmente falando é de troca de tarefas. Ao
mudar de tarefa, uma pessoa primeiro muda o objetivo e, portanto, toma uma
"decisão" para desviar a atenção da tarefa que está sendo executada
para outra tarefa e, em seguida, ativar uma regra para que as instruções e
procedimentos para a execução dessa tarefa sejam desligados, e aqueles para
execução da outra tarefa sejam ligados).
O que acontece é que cada tarefa demanda um tipo de comportamento da cognição impedindo que outros processos possam atrapalhar, entretanto, quando pula de uma tarefa para outra, com objetivos diferentes e decisões diferentes, aciona-se processos cognitivos para dá resposta a está nova atividade, ou seja, a ligação e desligação de certos procedimento para dá maior eficiência na resposta. Ao trocar de uma tarefa para outra requer dividir a atenção e a interferência de uma tarefa na outra, visto que cada tarefa compete por um recurso limitado de operações mentais.
Desse
modo, o que as pessoas querem realmente dizer sobre pessoas multitarefas são
aquelas que conseguem mudar de uma tarefa para outra da maneira rápida (ou
mídias digitais) e não processos simultâneos (WILLIGHAM, 2010; KIRSCHNER;
BRUYCKERE,
2017). Entretanto, isso não quer dizer, certamente, que essa atividade seja
benéfica e positivas para as pessoas; benéfico e positivo para o aprendizado ao
dispor que a criança aprender de forma eficaz e melhor desse modo; e que não
interfere em outras atividades. O que acontece é que isso leva um menor
desempenho no aprendizado e na realização das tarefas além de contribuir para a
ocorrência de problemas de atenção (KIRSCHNER; BRUYCKERE, 2017;
PIAZZI, 2015).
O
baixo desempenho se dá pelo fato de estarem sendo dinamizados processo
cognitivos limitados podendo levar ao erro em relação à execução de uma tarefa
por vez, isto é, uma baixa produtividade (WILLIGHAM, 2010; KIRSCHNER; BRUYCKERE,
2017). Além do mais, a execução de vários elementos ao realizarem a troca das
tarefas, a memória de trabalho pode se sobrecarga, atrapalhando e
impossibilitando o pensamento e, inevitavelmente, a aprendizagem (KIRSCHNER;
BRUYCKERE,
2017; WILLIGHAM, 2010).
A resposta das afirmações no princípio do texto mostra que, na visão das evidências científicas trazidas, principalmente pelo psicólogo Daniel T. Willinghan, não confere com os argumentos assim pronunciados por educadores e delegados da educação. O que se observa é a ausência de dados empíricos mais sólidos tocante as implicações das Novas Tecnologias na educação e conceitos extraídos que tem como centro as mesmas (WILLINGHAM, 2010) e, o mais preocupante, que esses discursos são bem aceitos pela comunidade educativa delegando mitos e lendas urbanas na educação.
Faz-se, como resposta, um conceito extraído da medicina de uma educação baseada em evidências para nortear as melhores práticas educacionais e também as políticas feitas através de pesquisas translacionais (DEHAENE, 2012); entretanto, isso já existe e é ignorado pela pedagogia (HAASE, COSTA, 2019). Por outro lado, verifica-se aquilo que Duarte (2001) traz como ilusões formuladas pelo capitalismo, e as propostas das modas pedagógicas tem como referência e justificativa a sociedade contemporânea traduzida por movimento político-ideológico educacional que impedem a aplicação da ciência, visto que as pedagogias do aprender a aprender as negam (DUARTE, 2010).
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