A QUESTÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO E TÁCITO CONTIDO EM ALGUNS AUTORES NO CONTEXTO DE FORMAÇÃO DOCENTE
Donald
Shön é um dos autores recorrentes na pedagogia quando se trata de formação de
professores, e a sua principal base de pensamento é a defesa do conhecimento
tácito (conhecer-na-ação, reflexão na ação – professor reflexivo) em oposição ao
conhecimento que dá sentido a existência da universidade e da instituição
escolar, científico. O autor faz essa oposição desvalorizando o conhecimento escolar ao
passo que defende uma epistemologia da prática, ou seja, os conhecimentos
oriundos da prática do professor e não dos conhecimentos acadêmicos/disciplinares/teóricos.
Essa
apresentação é uma crítica feita pela pedagogia histórico-crítica de Saviani na
voz de Newton Duarte - um pesquisador da área educacional que vem derrubando
ideias pseudocientíficas em educação e demostrando às consequências dessas
ideias na caracterização do professor, das instituição de ensino e, por sua
vez, da sociedade, haja vista que o mesmo contribui para o desenvolvimento
teórico, metodológico e filosófico da pedagogia de Saviani.
Sendo
assim, este texto traz de maneira sintética as defesas realizadas por Tardif,
Schön e Perrenoud e entre outros quanto a formação de professores e a sua
natureza, e as críticas as tais preposições direcionadas por Newton Duarte,
críticas essas que eu corroboro e assino em baixo. Dessa forma, o texto estará incluida bastante citações como uma prova das afirmações que eu faço e defendo da análise feita por Newton no seu artigo "Conhecimento tácito e conhecimento escolar na formação do professor (Por que Donald Scön não entendeu Lúria).
DESVALORIZAÇÃO
DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO: A questão epistemológica no centro do debate sobre
a formação de professores – o movimento obscurantista e negacionista da ciência
na pedagogia e na educação
Tardif,
assim como Schön, partilham da mesma conceituação de que a “epistemologia da
prática seja o estudo do conjunto dos saberes utilizados realmente pelos
professores em seu espaço de trabalho cotidiano para desempenhar sua tarefa”.
(Tardif, 2000, p. 10). Nessa defesa de Tardif de que a formação de professores
deve girar entorno na epistemologia da prática, ele afirma que os cursos de
formação de professores estariam errados porque o que está no centro são os
conhecimentos teóricos/científicos/disciplinares e não aqueles conhecimento que
os professores “realmente utilizam no cotidiano de sua prática”.
Em
outras palavras, o problema da formação de professores é a ciência e a sua centralidade
nos cursos de formação de professores. A
prova disso consiste no seguinte enunciado:
[...] do ponto de
vista metodológico, essa definição exige o que poderíamos chamar de um
distanciamento etnográfico em relação aos conhecimentos universidades Dizendo
de maneira polêmica, se os pesquisadores universitários querem estudar os
saberes profissionais da área de ensino, devem sair de seus laboratórios, sair
de seus gabinetes na universidade, largar seus computadores, largar seus livros
e os livros escritos por seus colegas que definem a natureza do ensino, os
grandes valores educativos ou as leis da aprendizagem, e ir diretamente aos
lugares onde os profissionais do ensino trabalham, para ver como eles pensam e
falam, como trabalham na sala de aula, como transformam programas escolares
para torná-los efetivos, como interagem com os pais dos alunos, com seus
colegas etc. (Idem, ibid., p. 12).
Tardif
afirma anteriormente que não se deve confundir os saberes profissionais
(aqueles constituídos da prática cotidiana, que é o estudo da epistemologia da
prática) com aqueles saberes oriundos da formação universitária. Assim, Tardif
define os saberes profissionais dos professores “como saberes temporais,
plurais, heterogêneos, personalizados, situados e, por fim, como saberes que
carregam as marcas do ser humano em consequência de o objeto do trabalho
docente ser constituído por seres humanos” (idem, ibid., p. 13-18).
Nessa
visão conspiracionista e negacionista da ciência na educação, Tardif defende
que esses saberes é o que deveriam ser a centralidade dos cursos de formação de
professores, deslocando a antiga configuração ("tradicional") para a
adoção daquela. O que se observa dessa ideia é que os trabalhos desenvolvidos
no campo disciplinar não teriam tanta importância na formação docente. Mais uma
vez Tardif se mostra opositor aos estudos no campo disciplinar e de sua
centralidade nas universidades.
Tardif
ainda continua defendendo que as universidades deveriam largar o modelo “aplicacionista”,
desligar da “lógica disciplinar” e passar a operar segundo uma lógica centrada
nos estudos sobre as tarefas e a realidade dos professores.
A
prova disso está na seguinte fala:
(...) é preciso quebrar a lógica
disciplinar universitária nos cursos de formação profissional. Não estamos
dizendo que é preciso fazer as disciplinas da formação de professores
desaparecerem; dizemos somente que é preciso fazer com que contribuam de outras
maneiras e tirar delas, onde ainda existe, o controle total na organização dos
cursos. Essa tarefa é difícil porque exige uma transformação nos modelos de
carreira na universidade, com todos os prestígios simbólicos e materiais que os
justificam. (...) A lógica da socialização profissional (...) deve
progressivamente excluir a lógica disciplinar como fundamento da formação.
(Idem, ibid., p. 21; grifo meu)
Assim,
quais seriam as consequências dessas ideias negacionistas da ciência? Uma
primeira consequência seria dos critérios de seleção das boas pesquisas no
campo dos fundamentos da educação; a seleção de professores iria aumentar
massivamente haja vista que o critério não se dá mais no domínio do conhecimento
científico, pois estes seriam desvalorizados e sem a menor importância em prol
da lógica da epistemologia da prática (dos saberes profissionais); haveria um
questionamento sobre a ideia de que é a universidade o local de formação de professores já que esta não iria girar entorno dos conhecimentos científicos,
mas sim tácitos. Diante dessa lógica, a universidade perde o seu sentido de
existir e adotada uma lógica anticientífica na qual qualquer lugar seria um
espaço de formação de professores.
Tardif
não deixa de continuar com as suas elucubrações, defendendo:
Na universidade, temos com muita frequência
a ilusão de que não temos práticas de ensino, que nós mesmos não somos
profissionais do ensino ou que nossas práticas de ensino não constituem objetos
legítimos para a pesquisa. Esse erro faz que evitemos os questionamentos sobre
os fundamentos de nossas práticas pedagógicas, em particular nossos próprios
postulados implícitos sobre a natureza dos saberes relativos ao ensino. Não problematizada,
nossa própria relação com os saberes adquire, com o passar do tempo, a
opacidade de um véu que turva nossa visão e restringe nossas capacidades de
reação. Enfim, essa ilusão faz com que exista um abismo enorme entre nossas
“teorias professadas” e nossas “teorias praticadas”: elaboramos teorias do
ensino e da aprendizagem que só são boas para os outros, para nossos alunos e
para os professores. Então, se elas só são boas para os outros e não para nós
mesmos, talvez isso seja a prova de que essas teorias não valem nada do
ponto de vista da ação profissional, a começar pela nossa. (Idem,
ibid., p. 21; grifo meu).
É
verdade que devemos fazer críticas ao status quo da nossa formação e como
regemos o nosso trabalho, é verdade também que há contradições entre aquilo que
defendemos quanto teorias profanadas ao que praticamos. Entretanto, o argumento
de Tardif se direciona ao ponto de salopar e desvalorizar as teorias estudas
afirmando que as mesmas não servem de nada do ponto de vista da ação
profissional
Tardif
acaba colocando que esse distanciamento entre as teorias profanadas e a prática é uma regra. Como tal, a solução desse problema não estaria em
estabelecer uma relação coerente, mas sim ao abandono das teorias profanadas,
isto é, o abandono dos conhecimentos científicos/teóricos/disciplinares, pois,
o conhecimento verdadeiro é aquele que está implícito à prática docente.
Com
o desenvolvimento e a finalização das suas ideias, Tardif demostra de maneira
clara a sua conclusão de que os conhecimentos universitários da configuração
tradicional são irrelevantes ou até mesmo podendo prejudicar sobre o caráter do
conhecimento científico/teórico/disciplinar tanto na formação acadêmica quanto
nas pesquisas em educação. Essas ideias de Tardif não poderia ficar de fora
daquele movimento que foi caracterizado por Moraes como o "recuo da
teoria" na pesquisa educacional:
A celebração do “fim da teoria” –
movimento que prioriza a eficiência e a construção de um terreno consensual que
toma por base a experiência imediata ou o conceito corrente de “prática
reflexiva” – se faz acompanhar da promessa de uma utopia alimentada por um
indigesto pragmatismo (...). Em tal utopia pragmatista, basta o “saber fazer” e
a teoria é considerada perda de tempo ou especulação metafísica e, quando não,
restrita a uma oratória persuasiva e fragmentária, presa à sua própria
estrutura discursiva. (2001, p. 3).
Tardif
não é o único autor que nega a ciência na formação de professores, Philippe
Perrenoud e Donald Schön também fazem parte desse quadro de autores que
defendem a epistemologia da prática. No caso de Perrenoud, ele alega que apesar
da universidade ser o local de formação docente, ela não estaria formando um
professor profissional (reflexivo) haja vista que isso foge a pesquisa da
universidade e, nesse sentido, a universidade deveria abandonar esse teor de
pesquisa e também algumas ilusões sobre o estado dos saberes teóricos e sua
pertinência para fundar uma prática profissional: “a “ilusão cientificista”, a
“ilusão disciplinar”, a “ilusão da objetividade” e a “ilusão metodológica” (Perrenoud,
2002, p. 89-105).
Esse
raciocínio de Perrenoud leva ao encontro do texto de Tardif, a desvalorização
dos conhecimentos teóricos/disciplinares/acadêmicos na formação de professores,
Perrenoud ainda continua com as suas falas:
A universidade parece ser o lugar,
por excelência, da reflexão e do pensamento crítico. Pode-se então ser tentado
a dizer que formar os professores segundo esse paradigma é uma tarefa “natural”
das universidades. Todavia, salvo em medicina, engenharia e administração, a
universidade não está organizada para desenvolver competências profissionais de
alto nível. Mesmo nesses domínios, Tardif mostra que os saberes disciplinares
superam o desenvolvimento de competências. Isso levou algumas faculdades de
medicina a operarem uma revolução, introduzindo a aprendizagem por problemas,
que coloca a abordagem teórica a serviço da resolução do problema clínico desde
o primeiro ano. (Idem, ibid., p. 14).
É
visto nesse esboço que o mesmo questiona se a universidade é realmente o local
de formação de professores e ainda o mesmo contribui para a desvalorização do
conhecimento escolar numa perspectiva pedagógica. Isto é, esse autor se alinha às
ideias escolanovistas e construtivistas (escola ativa, pedagogia ativa,
aprendizagem ativa) ao passo que defende o uso do PBL e de como deve compor o conhecimento
teórico. Aliás, esse autor ao se levar a
considerar que em algumas áreas é impossível a negação dos conhecimentos
científicos, acaba reduzindo-os apenas numa visão pragmática na solução de
problemas que lhes aparecem, demostrando o seu alinhamento com as pedagogias
hegemônicas (escolanovismo, construtivismo, pedagogia das competências,
professor reflexivo e pedagogia multiculturalista) no atual cenário da educação
brasileira.
Ao
avançar com a sua lógica, Perrenoud, defendendo a mesma tese de Tardif de que a
universidade falha por estar se centrada nas ciências e assim centrada nos
conhecimentos científicos dos professores, todos os professores deveriam se
tornar também formadores:
Em última instância, seja qual for
seu público, desejamos que todos os professores também se tornem formadores,
tanto no caso de crianças quanto no de estudantes mais velhos. Lutar contra a
exclusão, contra o fracasso escolar, contra a violência; desenvolver a
cidadania, a autonomia, criar uma relação crítica com o saber: tudo isso exige
que os professores de todos os níveis transformem-se em formadores. Sem dúvida,
esta é a razão fundamental de privilegiar a postura reflexiva. (Perrenoud,
2002, p. 186-187).
Desse
modo, Perrenoud caracteriza aquilo que ele define quanto a diferença entre o
professor e o formador:
professor dá prioridade aos
conhecimentos, já o formador dá prioridade às competências; o professor concebe
a aprendizagem como assimilação de conhecimentos, já o formador concebe a
aprendizagem como transformação da pessoa; o professor adota uma postura de
sábio que compartilha seu saber, já o formador adota uma postura de treinador que
orienta com firmeza uma autoformação; o professor parte de um programa, ao
passo que o formador parte das necessidades, práticas e problemas encontrados
(Perrenoud, 2002, p. 187).
Essas
postulações demostram de maneira bem evidente que as ideias de Perrenoud se
enquadram na pedagogia do aprender a aprender, direcionando a formação docente
para uma formação reflexiva, descaracterizando o papel do professor quanto uma
agente de transmissão do conhecimento. Está nítido que se direciona uma crítica
àquela pedagogia pejoricamente definida como conteudista, aquela pedagogia valoriza as competências a serem formados nas novas gerações de
alunos e professores - algo que tal autor defende e tantos outros diante dos debates pseudocientíficos da atualidade. Muitos ainda afirmam que isso foi um avanço da pedagogia
e da educação escolar, ou seja, uma ruptura considerável para a aplicação de
uma pedagogia anti-conteudista e anti-ciência, elementos esses que eram
dominantes na pedagogia tradicional. Entretanto, isso não se mostra nenhum
avanço, mas sim um retrocesso haja vista que o que está sendo ignorada por esse
novo "paradigma" é a negação da ciência e da sua importância para a
formação humana e de professores, ignorando os legados iluministas. Essa ideias se tornaram tão difundidas nas academias atualmente que virou um senso comum criticar uma pedagogia centrada na ciência,
no saber elaborado.
A aproximação que se faz entre o construtivismo e o escolanovismo e as ideias de
Perrenoud e Tardif consiste numa diferença sútil:
A diferença reside em que o
escolanovismo clássico e o construtivismo concentram seu foco de análise na
aprendizagem (ou construção do conhecimento) realizada pelo aluno ao passo que
os estudos sobre o professor reflexivo concentram seu foco de análise na aprendizagem
(ou construção do conhecimento) realizada pelo professor (DUARTE, 2003, p.610).
As
concepções de conhecimento tácito e conhecimento escolar em Donald Schön
Donald
Schön é mais um outro personagem da pedagogia que se opõe ao conhecimento escolar
(que são acadêmicos/teóricos/disciplinares) ao propor e defender o
conhecer-na-ação e a reflexão-na-ação (que são conhecimentos
tácitos/subjetivos/irracionais) - cabe salientar que esses dois conceitos de
conhecer e refletir na ação se enquadram na mesma categoria do conhecimento
tácito devido ao falto da argumentação de Schön não deixar dúvidas nisso, ou seja, o próprio autor afirma que ambos não são explicáveis e verbalmente formuladas (uso da linguagem) caracterizando, dessa forma, quanto conhecimentos tácitos (DUARTE, 2003).
Começa-se
a desenvolver o primeiro raciocínio negacionista do conhecimento escolar
postulado por Schön:
(...) o que está a acontecer na
educação reflete o que está a acontecer noutras áreas: uma crise de confiança
no conhecimento profissional, que despoleta a busca de uma nova epistemologia
da prática profissional. Na educação, esta crise centra-se num conflito entre o
saber escolar e a reflexão-na-ação dos professores e alunos. Antes de me
debruçar mais profundamente sobre esta ideia, é preciso dizer que ela nada tem
de novo. Muito daquilo que acabei de referir pode ser encontrado nas obras de
escritores como Leon Tolstoi, John Dewey, Alfred Schtz, Lev Vygotsky, Kurt
Lewin, Jean Piaget, Ludwig Wittgenstein e David Hawkins, todos pertencendo, se
bem que de formas diversas, a uma certa tradição do pensamento epistemológico e
pedagógico. (...) O movimento crescente no sentido de uma prática reflexiva,
cujas origens remontam a John Dewey, a Montessori, a Tolstoi, a Froebel, a Pestalozzi,
e mesmo ao Emílio de Rosseau, encontra-se no centro de um conflito epistemológico.
(Schön, 1997, p. 80 e 91).
Essa
primeira argumentação já deixa nítido que a problemática de negar o
conhecimento escolar não é nova, remonta a autores "clássicos" da
pedagogia do século XVIII e XIX, confirmando não ser o único opositor à
ciência. Um outro ponto elucida a questão do conflito epistemológico entre o
conhecimento escolar e a reflexão-na-ação (conhecimento tácito) na qual deve-se
valorizar este em função daquele, não só na formação de professores, mas também
na formação dos alunos nas escolas.
Schön,
apoiado no filósofo Michael Polany, conceitua o conhecimento tácito e a sua
"importância" em oposição à ciência:
espontâneo, intuitivo, experimental,
conhecimento cotidiano, do tipo revelado pela criança que faz um bom jogo de
basquetebol, (...) ou que toca ritmos complicados no tambor, apesar de não
saber fazer operações aritméticas elementares. Tal como um aluno meu me dizia,
falando de um seu aluno: Ele sabe fazer trocos, mas não sabe somar os números.
Se o professor quiser familiarizar- se com este tipo de saber, tem de lhe
prestar atenção, ser curioso, ouvi-lo, surpreender-se, e atuar como uma espécie
de detetive que procura descobrir as razões que levam as crianças a dizer
certas coisas. Esse tipo de professor se esforça por ir ao encontro do aluno e
entender o seu próprio processo de conhecimento, ajudando-o a articular o seu
conhecimento-na-ação com o saber escolar. Este tipo de ensino é uma forma de
reflexão-na-ação que exige do professor uma capacidade de individualizar, isto
é, de prestar atenção a um aluno, mesmo numa turma de trinta, tendo a noção do
seu grau de compreensão e das suas dificuldades. (Idem, ibid., p. 82).
Poderia
Schön está defendendo o conhecimento escolar? Vamos ver como o próprio autor define
e caracteriza esse saber:
Existe, primeiro que tudo, a noção de
saber escolar, isto é, um tipo de conhecimento que os professores são supostos
possuir e transmitir aos alunos. É uma visão dos saberes como fatos e teorias
aceites, como proposições estabelecidas na sequência de pesquisas. O saber
escolar é tido como certo, significando uma profunda e quase mística crença em
respostas exatas. É molecular, feito de peças isoladas, que podem ser
combinadas em sistemas cada vez mais elaborados de modo a formar um
conhecimento avançado. A progressão dos níveis mais elementares para os níveis
mais avançados é vista como um movimento das unidades básicas para a sua combinação
em estruturas complexas de conhecimento. (...) o saber escolar é categorial.
Finalmente, existe a ideia muito importante de que o conhecimento molecular,
certo, factual e categorial, é também privilegiado (Schön, 1997, p. 81-82).
O
tom taxativo e negativo do saber escolar se mostra de maneira bastante clara. A
visão de Schön também se enquadra no relativismo e do espírito anticientífico
pós-moderno; além disso critica o saber escolar quanto "molecular", o
qual seria constituído de "peças isoladas". Diante disso, a pergunta
que se faz é: quem sairia para a defesa do saber escolar quando o caracterizam
desse jeito? Quem defenderia uma pedagogia na qual o professor transmiti ao
aluno peças isoladas? A conclusão disso é bastante óbvia: o saber escolar
caracterizado dessa forma, faz com que os educadores defendam a outra vertente, isto é, o
conhecimento tácito.
Desse
modo, um professor reflexivo não adotaria uma pedagogia baseada no saber
escolar, categorial, mas sim as representações que os alunos têm da realidade,
e é isso o mais importante já que estariam mais próximos do cotidiano e
experiências do alunado. Schön ainda
diz:
[...] Quando um professor auxilia uma
criança a coordenar as representações figurativas e formais, não deve
considerar a passagem do figurativo para o formal como um “progresso”. Pelo
contrário, deve ajudar a criança a associar estas diferentes estratégias de
representação. (Idem, ibid., p. 83 e 85; grifo meu).
Então
esse autor diz que a passagem do conhecimento cotidiano e tácito ao
conhecimento escolar não deveria ser considerado um progresso. Essa ideia
mostra a desvalorização da ciência pela valorização do subjetivismo/tácito.
Essa mesma lógica também é aplicada para o professor, na qual não deveria ser
considerado um progresso quando o professor passa dos seus conhecimentos
práticos para o científico e filosófico sobre a educação. Desse modo, “[...] A
formação de professores deveria, ao invés de concentrar-se no domínio de
teorias científicas, voltar-se para o saber experiencial do professor” (DUARTE,
2003, p.618).
Schön
ainda afirma que o conhecimento escolar é a mesma coisa que a burocracia da
escola, assim como ela, escola, seria autoritária por estar centrada no saber
escolar e não "ouvirem" os professores e alunos. Com isso, as coisas
deveriam ser mudadas:
[...] 1) a concepção de conhecimento,
passando da valorização do conhecimento escolar à valorização do conhecimento
tácito, cotidiano, não-científico; 2) a pedagogia, passando de uma pedagogia
centrada na transmissão do saber escolar para uma pedagogia centrada na atenção
aos processos pelos quais os alunos constroem seu conhecimento; 3) a formação
de professores, passando de uma formação centrada no saber teórico, científico,
acadêmico para uma formação centrada na prática reflexiva, centrada na
reflexão-na-ação (DUARTE, 2003, p.620).
Mais
uma vez Schön é taxativo quanto ao saber escolar e a centralidade das ciências
na organização das Universidades ao passo que demostra de como deve ser a nova
pedagogia, chegando a postular que temos mais a aprender com as tradições da educação artística do que com os currículos normativos das universidades quando a formação de professores daquela visão ideal defendido pelos autores supracitados:
O que significa, então, formar um
professor para que ele se torne mais capaz de refletir na e sobre a sua
prática? Creio que temos mais a aprender com as tradições da educação artística
que com os currículos profissionais normativos do sistema universitário de
vocação profissionalizante. As instituições de formação artística (os ateliers
de pintura, escultura e design, os conservatórios de música e de dança) têm
longas tradições de formação profissional. Mas é evidente que muitas dessas
instituições ou não estão dentro da Universidade ou vivem desconfortavelmente
no seu seio. E isso por uma boa razão: baseiam-se numa concepção do saber
escolar diferente da epistemologia subjacente à Universidade. As tradições
“desviantes” da formação artística, bem como do treino físico e da aprendizagem
profissional, contêm, no seu melhor, as características de um praticam
reflexivo. Implicam um tipo de aprender fazendo, em que os alunos começam a
praticar, juntamente com os que estão em idêntica situação, mesmo antes de compreenderem
racionalmente o que estão a fazer. Nos ateliers de design arquitetônico, por
exemplo, os alunos começam por desenhar antes de saberem o que é design. (idem,
ibid., p. 88-89).
Dessa
forma, comungo com Newton quando diz:
[...] de pouco ou nada servirá a
defesa da tese de que formação de professores no Brasil deva ser feita nas
universidades, se não for desenvolvida uma análise crítica da desvalorização do
conhecimento escolar, científico, teórico, contida nesse ideário que se tornou
dominante no campo da didática e da formação de professores, isto é, esse ideário
representado por autores como Schön, Tardif, Perrenoud, Zeichner, Nóvoa e
outros. De pouco ou nada servirá mantermos a formação de professores nas
universidades se o conteúdo dessa formação for maciçamente reduzido ao
exercício de uma reflexão sobre os saberes profissionais, de caráter tácito,
pessoal, particularizado, subjetivo etc. De pouco ou nada adiantará defendermos
a necessidade de os formadores de professores serem pesquisadores em educação,
se as pesquisas em educação se renderem ao “recuo da teoria” (2003, p.620).
É
verdade que essa questão se pauta em pressupostos negativos do ato de ensinar,
pois negam a tarefar do professor nas escolas e de formadores de transmitirem o
conhecimento científico para os seus alunos. Isso faz chegar a conclusão de
que a epistemologia da prática, o professor reflexivo e a pedagogia das
competências são ideias negativas/nocivas da tarefa do professor, das escolas e
das universidades, ou seja, configuram quanto ideias que enquadram no universo pedagógico
denominado das pedagogias do aprender a aprender (DUARTE, 2001).
As
discussões tecidas demonstra casos concretos de muitos “teóricos” (como
poderiam serem teóricos se os mesmos negam a importância da ciência na formação
de professores?) da pedagogia e da educação que negam a ciência, pois suas
ideias se enquadram diante de uma sociedade que o seu espírito consiste no
movimento anticiência. As discussões é apenas um exemplo de vários outros
trabalhos que se tornaram referência na educação e a pedagogia com uma ampla aceitação dos cursos de formação de professores no Brasil e pelo mundo afora.
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MORAES, M.C.M. Recuo da teoria:
dilemas na pesquisa em educação. In: INTELECTUAIS, conhecimento e espaço
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“aprender a aprender” e algumas ilusões da assim chamada sociedade do
conhecimento. Revista Brasileira de Educação, Belo Horizonte, n.
18, p. 35-40, 2001.
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donald schön não entendeu luria) Educ. Soc., Campinas, vol. 24, n. 83,
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TARDIF, M. Saberes profissionais
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