Problematizando a pedagogia: a questão dos exercícios extensivos quanto abordagem de ensino
Durante a história da educação alguns
debates e dilemas foram desenvolvidos entorno do que se existia na escola
tradicional e o que poderia ser feito quanto uma alternativa a essa escola. A
partir disso, surgiu um movimento educacional que teve como propósito a negação
de postulados defendidos pela antiga escola (principalmente aquela constituída
em meados do século XIX sobre influência de ideias iluministas e da
industrialização). Está se falando do embate que foi travado entre os
defensores da Escola Nova (escolanovismo) contra a Escola Tradicional, e um
desses dilemas e debates se encontra a questão do exercício, da prática extensiva
que era uma marca da velha escola. Passou a ser estabelecer ideias de que o
exercício (a prática extensiva) teria impacto negativo sobre o indivíduo, em
especial a criança, na qual seciaria toda a sua iniciativa, criatividade,
liberdade, autonomia e espontaneísmo, tornando-os seres robóticos, tristes e
com a infância desgastada e árida. A luta contra os métodos mecânicos de ensino
(da velha escola) em favor dos métodos espontâneos de ensino (da nova escola)
se tornou uma pauta durante o final do século XIX e durante todo o século XX
quanto pensamento hegemônico em educação, e a visão de se defender os métodos
espontâneos (ideário escolanovista) teve forte influência sobre o pensamento
educacional brasileiro, que acabou se tornando um senso comum pedagógico
acadêmico. A partir de agora, seria errado defender atividade de ordem mecânica,
que por sua vez requereria transmissão de conhecimento por parte do professor
(ou dosar esse ensino) e uma diretividade por parte do mesmo; e o correto seria
afirmar de maneira contrária, ou seja, atividades espontâneas/livres,
autônomas, uma prática pouco guiada, a ausência de transmissão de conhecimento
e a defesa da aprendizagem por descoberta em si mesma. Eis a questão: o
exercício teria esse impacto negativo sobre o sujeito? O que nos diz a
psicologia cognitiva sobre a questão do exercício?
A
primeira resposta é bem clara e direta: “É virtualmente impossível tornar‑se
proficiente em tarefa mental sem uma prática extensiva” (WILLINGHAM, 2011, p.102).
Para dominar certos conhecimentos mais avançados, é necessário que as bases
(como os fatos aritméticos e a decodificação da palavra) sejam automatizados
para, assim, liberar recursos cognitivos (espaço na nossa memória de trabalho) e
cerebrais. A automatização desses conhecimentos seria o resulta da prática, do
exercício; assim, podemos ilustrar a importância do exercício: automatizar
processos/conhecimentos básicos para, então, liberar recursos cognitivos que,
por sua vez, permitirá a aprendizagem de conhecimentos mais avançados.
Uma
pergunta que se faz é: por que precisamos praticar/exercitar? Para adquirir uma
nova competência e para refinar uma habilidade e/ou área de domínio. Os alunos
precisam praticar bastante divisão até que domine o processo, ou seja, até que
possam trabalhar com segurança em problemas maiores de divisão. Outras
habilidades básicas seguem a mesma regra. Está aí, mais uma vez, a importância
da prática/exercício: ganhar competência e aperfeiçoá-la. A pesar de ser um
consenso na comunidade acadêmica de psicológica cognitiva sobre a importância
da prática, na educação pouca atenção foi dada a essa questão e até mesmo
críticas foram feitas contra a automatização e a prática extensiva; entretanto,
sabemos que a prática é de fundamental importância para a escolarização.
Podemos elencar três benefício importantes em relação à prática: “[...] reforçar
a proficiência necessária para aprender habilidades mais avançadas, proteger
contra os esquecimentos e melhorar a transferência” (WILLINGHAM, 2011, p.103).
A
prática possibilita novas aprendizagens
Para
que possamos aprender alguma coisa nova, a informação que é filtra (trabalho da
atenção) precisa ser processada de maneira consciente na nossa memória de
trabalho/curto prazo (local onde fica a nossa consciência, onde ocorre o
pensamento e onde acontece todo processamento consciente/controlado/deliberado)
para depois ser transferida para a nossa memória de longo prazo; entretanto,
essa memória é bastante limitada em ternos de quantidade de informação que pode
ser processada ao mesmo tempo e a duração dessa informação na memória. “Essa
falta de espaço na memória de trabalho é um obstáculo fundamental da cognição
humana [...]” (WILLINGHAM, 2011, p.104).
Esses
dois fatos (de onde ocorre o nosso pensamento e as limitações dessa memória)
impõem certas restrições para o aprendizado de qualquer material/conteúdo, pois
quando ultrapassamos as limitações dessa memória estaremos perdendo o controle
do pensamento (o fio da meada) e impossibilitando o aprendizado. Porém, existe
algumas maneiras de contornar as limitações impostas pela nossa memória de
trabalho e, portanto, da nossa arquitetura cognitiva e cerebral: por meio de agrupamento
de dados – que consiste em condensar/compactar os dados (informações/fatos) separados
em uma unidade significativa de informação. “[...] Em vez de manter na memória
de trabalho as letras c, o, g, n, i, ç, ã e o, você as agrupa em uma única
unidade – a palavra cognição. Uma palavra inteira ocupa praticamente o mesmo
espaço na memória de trabalho que uma única letra ocuparia. Porém, agrupar
letras em uma palavra requer que você conheça o termo [...]” (WILLINGHAM, 2011,
p.105). Em outras palavras, uma maneira de contornar as limitações da nossa
cognição é o conhecimento prévio.
Outra
maneira de contornar as limitações da memória de trabalho é por meio da automatização
(o processo que será debatido neste texto) – lidar com informação e
processos cognitivos de maneira inconsciente, com pouca ou quase nenhuma
atenção dedicada e com baixo gasto energético. “[...] Na realidade, pode torná‑los
tão eficientes (processos cognitivos e cerebrais) que eles podem ocorrer
virtualmente sem maiores esforços. Pense sobre aprender a amarrar os cadarços.
Inicialmente, isso requer total atenção e, por isso, ocupa totalmente a memória
de trabalho, mas com a prática é possível amarrar os cadarços automaticamente
[...]” (WILLINGHAM, 2011, p.105). Com essa automatização, o que antes ocupava
toda a nossa memória e atenção, agora ocupa pouca ou quase nenhum espaço da
memória de trabalho e requer pouca ou quase nenhuma atenção. “Processos mentais
podem vir a ser automatizados. Processos automáticos requerem pouca ou nenhuma
capacidade da memória de trabalho. Eles também tendem a ser bastante rápidos,
de modo que você parece simplesmente saber o que faz sem mesmo ter de tomar uma
decisão consciente [...]” (WILLINGHAM, 2011, p.105).
Podemos
dar um exemplo de processo automático para ilustrar de maneira bem clara: a
questão da leitura, que é um processo automático. Vamos tomar a leitura da
palavra calça para descrever de como essa leitura acontece na nossa
mente: como a leitura não se tornou automática, a criança reconhece cada letra
da palavra calça de maneira isolada (c, a, l, ç e a), ela precisa lembrar
dos sons de cada letra de maneira meticulosa (lenta) e associá-las, depois as
crianças precisam combinar esses sons e reconhecer que essa associação e combinação
dos sons forma a palavra calça. Todo esse processo ocupa totalmente a
memória de trabalho, que é dedicada para a decodificação da palavra não
deixando mais espaço para extrair o significado daquilo que se ler (não há
compreensão de texto sem a automatização desse processo). Porém, em um leitor
experiente, esse processo acontece de maneira inconsciente/rápida como um flash
e a palavra surge na nossa mente. “[...] (1) Acontece muito rapidamente.
Leitores experiente leem palavras cotidianas em menos de um quarto de segundo.
(2) É ativado por um estímulo do ambiente; e se esse estímulo estiver presente,
o processo ocorrerá, quer você queira, quer não queira [...] (3) Você não está
ciente dos componentes do processo automático. Isto é, os componentes do
processo de leitura (por exemplo, identificar letras) nunca são conscientes. A
palavra calça chega até a consciência, mas o processo mental necessário para
concluir que a palavra é calça não é consciente. Isso é muito diferente no caso
de um leitor iniciante, que está consciente de cada passo do processo (“isso é
um p, que faz um som de ‘pã’...”). [...] Processos que anteriormente ocupavam
espaço passam a utilizar menos essa capacidade, abrindo margem para outras
atividades. No que se refere à leitura, estas “outras” atividades poderiam
incluir pensar sobre o que as palavras realmente significam. Os leitores menos
experientes que fazem uma leitura lenta e meticulosamente observam o som de
cada letra para então combiná‑los em palavras; assim, não há espaço para pensar
sobre o significado [...]” (WILLINGHAM, 2011, p.107). Esses processos
automáticos são o resultado da prática/exercício, que faz com que um
conhecimento seja automatizado – como é o caso do exemplo da leitura.
A
dificuldade de muitos alunos no momento da leitura e da produção texto reside nesse
fato: eles estão prestação atenção em identificar as letras e de como combiná-las
na palavra escrita e, como consequência, estão dando pouca ou quase nenhuma
atenção para o conteúdo da leitura; e para a produção de texto o processo é o
mesmo, a criança presta mais atenção nas letras corretas que serão utilizadas
para escrever cada palavra e esquecem do conteúdo da produção textual; isso
acontece devido às limitações da nossa memória de trabalho. É por isso que os
currículos das séries iniciais têm como foco a decodificação da palavra, para,
depois, o foco se destinar à compreensão do texto (que envolve várias outras habilidades
linguísticas).
Além
disso, outros processos também podem vir a serem automatizados, como é o caso
das regras gramaticais que, para um aluno experiente, elas são usadas de
maneira bastante natural. Esses alunos mais experientes “[...] não precisam
pensar sobre a concordância entre sujeito e verbo ou sobre evitar terminar uma
frase com uma preposição” (WILLINGHAM, 2011, p.108). Em resumo poderíamos dizer
sobre a relação entre a aprendizagem e a prática/exercício: “[...] Até onde se
sabe, o único modo de desenvolver a facilidade mental é realizar o processo
alvo de novo, de novo e de novo” (p.109). Para a educação uma sentisse pode ser
elaborada: “O que vale para a leitura vale para a maioria ou para todos os
assuntos escolares e para as habilidades que desejamos que nossos alunos
desenvolvam. Elas são hierárquicas. Existem processos básicos (como recuperar
fatos matemáticos) que inicialmente ocupam a memória de trabalho, mas que, com
o tempo, se tornam automáticos a fim de que os alunos possam avançar seus
raciocínios ao próximo nível. O grande filósofo Alfred North Whitehead
expressou o fenômeno nesta fala: “É um truísmo profundamente errôneo, repetido
por todos os copybooks e por discursos de pessoas eminentes, o de que devemos
cultivar o hábito de pensar sobre aquilo que fazemos. O exato oposto é o caso.
A civilização avança por estender o número de operações importantes que podem
ser realizadas sem ser necessário pensar sobre elas” (WILLINGHAM, 2011, p.109).
Acentua-se
aqui, segundo uma perspectiva pedagógica, o grande erro das pedagogias ativas
de base escolanovista e construtivista: considerar toda transmissão de conteúdo
como mecânico e todo mecanismo como anticriativo, assim como todo automatismo
como negação da liberdade. As pedagogias ativas perderam de vista o elemento
clássico na educação escolar (transmissão-assimilação do saber sistematizado),
o que define quanto a razão de existir da instituição escolar e, além disso, acabou
perdendo de vista os fins que devirão ser atingidos pela escola ao passo que se
preocupou exclusivamente com a questão das formas de ensino, ignorando que são
os fins a atingir que define as formas e os meios mais adequados na atividade
de ensino. Essa visão de considerar a questão da transmissão-assimilação do
conhecimento quanto puramente mecânico (desprovido de sentido), e todo
mecanismo como sinônimo de anticriatividade bem como o automatismo como negação
da liberdade, do espontaneísmo e da autonomia não é sustentado segundo a
psicologia cognitiva e por muitos estudos pedagógicos, como aqueles realizados
por Saviani.
De
maneira contrária às pedagogias ativas, é a própria automatização que permite a
liberdade, a criatividade e a autonomia do sujeito. “[...] é preciso entender
que o automatismo é condição da liberdade e que não é possível ser criativo sem
dominar determinados mecanismos. Isto ocorre com o aprendizado nos mais
diferentes níveis e com o exercício de atividades também as mais diferentes.
Assim, por exemplo, para se aprender a dirigir automóvel é preciso repetir
constantemente os mesmos atos até se familiarizar com eles. Depois já não será
necessária a repetição constante [...]” (SAVIANI, 2015, p.290).
Como
já foi dito, durante a aprendizagem toda a nossa atenção e espaço da memória de
trabalho é recrutada para realizar a atividade de assimilação do conhecimento;
e nesse momento/condição inicial da aprendizagem o sujeito não domina os
mecanismos, mas ao contrário, são os mecanismo que dominam o sujeito, pois o
sujeito fica incapaz de realizar outra tarefa e subordinado exclusivamente aos
mecanismos que precisam ser aprendidos, em outras palavras, a criança/sujeito
se torna escravo dos atos que precisam aprender e a liberdade é negada. “[...] A
liberdade só será atingida quando os atos forem dominados. E isto ocorre no
momento em que os mecanismos forem fixados. Portanto, por paradoxal que pareça,
é exatamente quando se atinge o nível em que os atos são praticados
automaticamente que se ganha condições de se exercer, com liberdade, a
atividade que compreende os referidos atos. Então, a atenção se liberta, não
sendo mais necessário tematizar cada ato [,,,]” (SAVIANI, 2015, p.292). A
partir disso a criatividade pode ser exercida, pois o sujeito não estará mais
prestando atenção dos mecanismos de maneira isolada, mas sim a de utilizar esses
conhecimentos/mecanismo automatizados de várias formas diferente. “[...] o
aprendiz, no exercício daquela atividade que é o objeto de aprendizagem, nunca
é livre. Quando ele for capaz de exercê-la livremente, nesse exato momento ele
deixou de ser aprendiz. As considerações supra podem ser aplicadas em outros
domínios, como por exemplo, aprender a tocar um instrumento musical [...]” (SAVIANI,
2015, p.291).
Observasse
a questão da alfabetização – mais uma vez – a luz do entendimento pedagógico: “Ora,
esse fenômeno está presente também no processo de aprendizagem através do qual
se dá a assimilação do saber sistematizado, como o ilustra, de modo eloqüente,
o exemplo da alfabetização. Também aqui é necessário dominar os mecanismos
próprios da linguagem escrita. Também aqui é preciso fixar certos automatismos,
incorporá-los, isto é, torná-los parte de nosso próprio corpo, de nosso
organismo, integrá-los em nosso próprio ser. Dominadas as formas básicas, a
leitura e a escrita podem fluir com segurança e desenvoltura. Na medida em que
vai se libertando dos aspectos mecânicos, o alfabetizando pode,
progressivamente, ir concentrando cada vez mais sua atenção no conteúdo, isto
é, no significado daquilo que é lido ou escrito. Note-se que libertar-se, aqui,
não tem o sentido de livrar-se, quer dizer, abandonar, deixar de lado os ditos
aspectos mecânicos. A libertação só se dá porque tais aspectos foram
apropriados, dominados e internalizados, passando, em conseqüência, a operar no
interior de nossa própria estrutura orgânica. Poder-se-ia dizer que o que
ocorre, nesse caso, é uma superação no sentido dialético da palavra. Os aspectos
mecânicos foram negados por incorporação e não por exclusão. Foram superados
porque negados enquanto elementos externos e afirmados como elementos internos”
(SAVIANI, 2015, p.291).
É
perceptível que a verdadeira aprendizagem (a mais profunda e desejada pelos
professores) acontece quando o sujeito adquiri um habitus, uma disposição
permanente, quando o objeto de aprendizagem se converte em uma segunda
natureza, escrita na nossa estrutura orgânica e que não conseguimos mais nos
ver sem esse aprendizado (como é o exemplo de uma pessoa plenamente
alfabetizada e letrada), tratando-o de maneira natural, que agora é intrínseco
ao sujeito (uma habilidade artificial que se converteu em uma habilidade
natural). E como se chega a isso? De maneira mecânica, e não espontânea. Requer
esforço deliberado e de uma sistematização por parte de quem ensina. “Adquirir
um habitus significa criar uma situação irreversível. Para isso, porém, é
preciso insistência e persistência; faz-se mister repetir muitas vezes
determinados atos até que eles se fixem. Não é, pois, por acaso que a duração
da escola primária é fixada em todos os países em pelo menos quatro anos. Isso
indica que esse tempo é o mínimo indispensável [...]” (SAVIANI, 2015, p.292).
Mais
uma vez é ilustrado o erro das pedagogias ativas em relação ao aprendizado,
alegando que as atividades mecânicas teriam efeito negativo sobre o sujeito e
teria toda uma conotação pejorativa de ser um ensino transmissivo, autoritário,
passivo, desprovido de sentido e significado, desprovido de liberdade, da
autonomia do sujeito e da criatividade. Entretanto, o oposto é o caso como foi
demostrado pela visão da psicologia cognitiva e da pedagogia. A questão maior,
em relação aos estudos pedagógicos, é abandonar a fase romântica e adentrar na
fase racional da educação, questão essa que já foi denunciada há mais de 80
anos por Antônio Gramsci em seu livro Os intelectuais e a organização da
cultura, e, passado todo esse tempo, ainda continuamos na fase romântica.
REFERÊNCIAS
SAVIANI,
Dermeval. Sobre a natureza e a especificidade da educação. Germinal:
Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 7, n. 1, p. 286-293, jun. 2015.
WILLINGHAM,
Daniel T. Por que os alunos não gostam da escola? Respostas da ciência
cognitiva para tornar a sala de aula atrativa e efetiva. Porto Alegre: Artmed,
2011.
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