Os exercícios matam o pensamento?
Os exercícios matam o pensamento?
Foi e é muito comum certas pessoas
afirmarem que a utilização de exercícios como ferramenta de aprendizado estaria
matando a criatividade e impossibilitando o aprendizado de processos de
pensamentos superiores. Ao contrário disso, os alunos deveriam aprender através
de problemas das quais lhes sejam mais interessantes, autênticas, os quais os
alunos poderiam resolver sozinhos, construindo assim seu próprio conhecimento.
Eis a grande questão. As pesquisas em
psicologia cognitiva e em neurociência cognitiva não confirmam que os
exercícios/a prática teria impacto negativo no aprendizado; muito pelo
contrário: seria a prática/exercício condição da aprendizagem e um elemento
chave de um ensino eficaz.
Exemplos dessas pesquisas que apontam
para uma linha oposta do que se vem afirmando em oposição aos exercícios, é a
pesquisa de Swanson e Sachse-Lee (2000), em que esses autores constaram que a
utilização de exercícios práticos e revisões metódicas produzia efeitos de
grande amplitude. Brophy (1986) concluiu que o desenvolvimento dos
conhecimentos básicos e habilidades necessárias para atingir níveis de
desempenho altos, automatizados e sem erro exigia muitos exercícios.
A grande questão que fica é? Seria possível
se tornar um especialista na área sem praticar de maneira intensiva as
habilidades e conhecimentos? É só pensar o quanto foi necessário praticar a
tabuada para poder resolver problemas mais complexos de matemática. Veja quanto
foi necessário prática a leitura e a escrita para poder utilizá-la em níveis
mais complexo da linguagem escrita. Veja o quanto foi necessário repetir os
mesmos atos para aprender a andar de bicicleta, dominar um instrumento musical
etc. A proficiência naquilo que queremos ter depende do quanto praticamos e
automatizamos determinados atos fazendo com que exija menos da nossa memória consciente.
Vejamos o que dizem Kozloff, Lanunziata
e Cowardin (1999, p. 21):
A habilidade e a criatividade adquiridas
ao longo da vida inteira por artistas, adeptos de artes marciais, pintores,
escritores, músicos, bons cozinheiros e atletas demonstram a necessidade de
prática, prática e mais prática para obter precisão, facilidade, resistência,
ritmo, memorização e automatização (ou seja, autonomia). Em vez de ser um
método de tipo drill and kill (repetição mecânica levando a um tédio total), o
Direct Instruction utiliza uma “prática perfeita”, isto é, uma prática
caprichosamente planejada para ajudar os alunos a “vencerem as dificuldades”
encontradas, desenvolverem as habilidades ou conhecimentos que ainda lhes
faltam, bem como atingirem fluidez (KOZLOFF; LANUNZIATA & COWARDIN, 1999,
p. 21).
Os trabalhos realizados por Ericsson
(1993) demonstram que são necessários em média dez anos de prática, na base de
três ou quatro horas por dia para alcançar a fluidez que caracteriza o
desempenho de especialistas em seus respectivos domínios.
Na mesma direção, Chase e Chi (1980) examinam
como essa especialização se desenvolve: A resposta mais óbvia é a prática,
milhares de horas de prática [...] porque, de modo geral, a prática é, de
longe, o melhor indicador de um bom desempenho. Ela pode produzir dois tipos de
conhecimentos [...] um armazenamento de esquemas (patterns) e um conjunto de estratégias
ou procedimentos para executá-los (p. 12).
O domínio de uma habilidade conforme a
prática foi estudada do ponto de vista estatístico por Morzano, Pickering e
Pollock (2001, p. 67) ao construírem um gráfico de progressão do aprendizado
conforme o número de sessões de prática.
O gráfico mostra que com apenas 4 sessões de prática o indivíduo atinge
quase 50% do nível de habilidade. Por outro lado, para atingir 80% requer mais
sessão de prática/tempo exercitando (mínimo 24) e assim sucessivamente.
O gráfico nos diz que para dominarmos
determinada habilidade com a maior eficiência, requereria anos de prática. Só
dessa forma os alunos iriam conseguir atingir um grau de velocidade e precisão
Os mesmos autores salientam e orientam
não pular o período de prática durante o trabalho de transmissão-assimilação do
conteúdo e habilidade. A partir disso, um script pode ser montado: 1. os alunos
tentam e são encorajados a compreenderam a habilidade que devem executar (e
isso precisa de tempo). 2. ao dar tempo para que o aluno possa compreender o
que foi pedido, as práticas se tornam o carro chefe da aprendizagem. Caso a
compreensão ainda não tenha sido satisfatória, não adianta passar inúmeros
exercícios intensivos visto que se transforaria numa prática puramente mecânica
e sem objetivo; mas sim em passar pequenos exercícios para que possam desenvolver
a compreensão do que foi pedido.
Por outro lado, pode acontecer da
prática chagar a um ponto de ser irrelevante, inútil e até mesmo perda de tempo
e frustrante para os alunos. Isso acontece principalmente quando os aprendizes
já têm domínio e fluidez das competências que se quer ensinar. Quando o
professor tem esse insith, ele deve passar para um outro nível de complexidade.
Aqui recaímos e um ponto muito
importante: se a prática for utilizada de forma estruturada e, portanto, com
finalidades bem claras e definidas, ela pode ser uma grande aliada para o
aprendizado; por outro lado, ela pode se tornar uma tarefa inútil, sem sentido,
puramente mecânica e frustrante
REFERÊNCIAS
MARZANO, R.; PICKERING, D.J. & POLLOCK, J.E. (2001).
Classroom Instruction that Worksi – Research-based Strategies for
Increasing Student Achievement3. Alexandria: Associação de Supervisão e
Desenvolvimento do Currículo.
KOZLOFF, M.;
LANUNZIATA, L. & COWARDIN, J. (1999). Direct Instruction in Education.
Universidade da Carolina do Norte em Wilmington [Disponível em
http://www.beteronderwijsnederland.nl/files/active/0/Kozloff%20e.a. %20DI.pdf].
ERICSSON,
K.A.; KRAMPE, R.T. & TESCH-RÖMER, C. (1993). “The Role of Deliberate
Practice in the Acquisition of Expert Performance”. Psychological Review,
vol. 100, n. 3, p. 363-406.
CHASE, W.
& CHI, M. (1980). “Cognitive Skill: Implications for Spatial Skill in
Large-scale Environments”. In: HARVEY, J. (org.). Cognition, Social
Behavior, and the Environment. Potomac: Erlbaum.
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